1.
Mal pude acreditar naqueles rostos espantados e no pavor que rapidamente se alastrou pela rua. Não durou muito e o barulho da sirene já penetrava por todas as quadras.
Meu Deus! Como demorei a associar que o incêndio se passava no lote em que havia me mudado há poucos dias. Lembro-me também que, além da mudança de domicílio, havia passado por uma mudança no horário de trabalho e agora estava no período noturno, o que me deixava ainda atordoado.
Quando cheguei ao portão estava suado, o sapato, que o moleque de rua lustrara pouco antes, estava totalmente marrom de tanta poeira. Com o novo emprego, Agora eu podia contratar alguém para ficar na mecânica que meu pai montou para mim.
2.
Desligou o despertador do celular, enjoado e com dores na cabeça, cerrou os olhos na tentativa de lembrar-se de como e quando havia chegado em casa…
Finalmente, depois meia hora de relutância, decidiu levantar-se. O desequilíbrio, causado pela pisada incerta em algo, que descrevera mais tarde como macio e extremamente frio, fê-lo cair de joelhos aos pés da cama. A imagem que vira adiante causou-lhe pânico e uma estranha satisfação. Pensou em gritar, mas abafou, engoliu seco. Com a face pálida, pernas e mãos trêmulas sentiu a roupa molhada.
- Como? Não sei. Mas está aqui e vai continuar. – balbuciou esbaforido.
Com as sobrancelhas franzidas e a boca entreaberta, juntou as palmas das mãos entre o peito e fez uma oração muda, como em todas as manhãs.
Chutou para baixo da cama o braço estendido e com o lençol enxugou rápido o líquido diurético empoçado no chão.
- As chaves…
A mecânica, ao fundo do lote, onde trabalhava, tinha gasolina o suficiente para o que começara a maquinar em pensamento.
(Ludimila Loureiro)
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Olá, pessoal, inaugurando o blog com este conto. Um abraço.